Onda vermelha na Bento Gonçalves

Publicação: segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009 - jornal Diário Popular

Falta de sincronia dos semáforos localizados na via símbolo de Pelotas provoca o arranca-anda-para de veículos que irrita quem precisa vencer os 13 cruzamentos entre as ruas Almirante Barroso e Marcílio Dias


Atravessar a avenida Bento Gonçalves de ponta a ponta pode ser um desafio à paciência de qualquer motorista, não importa o dia da semana. Dos 13 cruzamentos entre as ruas Almirante Barroso e Marcílio Dias, dez têm semáforos e a maior parte deles o condutor vê fechado ao chegar no fim da quadra.

Em um meio-dia calmo, durante as férias de verão e sem o movimento de saída das escolas, atravessar a Bento no sentido Barroso-Marcílio Dias leva ao menos sete minutos. No sentido contrário, o mesmo trecho pode ser feito em cinco minutos. O arranca-anda-para em cada quadra não permite que o motorista passe da terceira marcha, e dificilmente é possível alcançar mais que os 35 ou 40 quilômetros por hora (km/h) circulando pela direita, em uma via na qual o limite é 60 km/h.

No ponto de táxi da esquina das ruas General Netto e Osório, a preocupação dos taxistas Antônio Celso Nunes e José Francisco Borges é com o horário dos passageiros, especialmente os que vão para a rodoviária. Clientes com pressa veem nos sinais vermelhos uma possibilidade de perder a viagem marcada. "A ida é um horror, os sinais são desencontrados. Na volta, se pega vários sinais verdes e em ruas como a Deodoro se anda bem", comenta Nunes.

A dificuldade de locomoção na Bento Gonçalves é atribuída pela Secretaria de Segurança, Transporte e Trânsito (SSTT) à característica da via, pouco espaçosa para o volume de veículos que recebe e com muitos cruzamentos, além de ser amplamente utilizada como espaço de lazer - o que gera a característica lentidão da faixa da esquerda. Para o secretário Jacques Reydams, a melhor alternativa é evitar a avenida sempre que possível.

Entretanto, os problemas com os repetidos sinais vermelhos são reconhecidos. "Talvez seja o caso de repensar a programação dos semáforos", comenta Reydams. Para isso, será necessário atualizar os dados de fluxos de veículos para melhorar a sincronia. A dificuldade em manter os dados da via atualizados está na falta de pessoal para realizar a contagem dos carros, que analisa o tréfego em todo o período diurno e gera as estatísticas que baseiam as programações.

Sinal queimado

À falta de sincronia, somam-se lâmpadas quebradas em sinaleiras a todo lado. Resultado de um lote defeituoso fornecido à prefeitura e da vedação precária das sinaleiras, pouco protegidas de chuva e vento. Sem contar as quedas de luz, que colocam os sinais em amarelo piscante, medida de segurança automática para que não queimem.

Exemplo de fluidez

Se na avenida Bento Gonçalves o vermelho é a cor predominante, uma onda de sinais verdes permitem agilidade no trânsito da Marechal Deodoro. No trecho entre Bento Gonçalves e Tiradentes, dos 11 cruzamentos, cinco têm sinaleiras. Depois de um sinal fechado na esquina com a Voluntários da Pátria, a reportagem do Diário Popular seguiu por uma sequência de passagens livres nas sinaleiras da General Neto, Marechal Floriano, Lobo da Costa e Tiradentes. Foram apenas dois minutos para andar 11 quadras, cinco a menos do que se leva para percorrer a mesma distância pela avenida.

A Marechal Floriano, em pleno centro da cidade, é outro exemplo de que o trânsito pode fluir. Entre as praças Coronel Pedro Osório e Vinte de Setembro são oito sinaleiras distribuindo o trânsito de dez cruzamentos. O trecho pôde ser percorrido em três minutos, com apenas três paradas obrigatórias: nas ruas Félix da Cunha, General Osório e Marcílio Dias. Entre elas, sequências de sinais verdes desafogam os arredores do Calçadão e facilitam o acesso ao bairro Fragata e à saída para Rio Grande.

Nessas vias, os semáforos trabalham de forma coordenada. A programação é pré-estabelecida, mas um semáforo mestre controla três sinaleiras, permitindo o dinamismo do tráfego, conforme explica o responsável pelos semáforos na SSTT, Francisco Cruz. Essa sincronização de sinais é conhecida como Onda Verde. A sequência de passagens livres favorecem o fluxo em uma via ao permitir que os veículos mantenham uma velocidade constante, sem necessidade de parar. Além de tempo, a onda economiza dinheiro, já que sem precisar arrancar repedidamente o consumo de combustível é reduzido. Medida também favorável ao meio ambiente.

Em diversas capitais, como Porto Alegre, a onda verde é controlada por sensores na pista que identificam o fluxo em tempo real e atualização a programação dos sinais verdes. Em Pelotas, essa tecnologia ainda é realidade distante. Por enquanto, a onda verde em alguns locais é programada a partir da contagem de fluxo e as estimativas para cada horário.

Muita confusão no caminho das compras

Publicação: domingo, 8 de fevereiro de 2009 - jornal Diário Popular

Problemas estruturais como a rede de esgoto e a fiação no Calçadão diminuem o brilho de um dos locais mais frequentados do centro da cidade


Mau cheiro, falta de espaço para circular em algumas quadras, piso irregular, caos na fiação exposta e sujeira, muita sujeira. Quem passa todo dia pelo Calçadão pode já ter se acostumado com os problemas, mas eles estão aí, atrapalhando lojistas, consumidores e turistas que visitam o centro comercial de Pelotas. A curto prazo, as modificações previstas pela prefeitura são paliativas. A longo prazo, um projeto de revitalização do trecho comercial da Andrade Neves, previsto desde 2006, deve começar a sair do papel no segundo semestre de 2009, e promete resolver de vez as queixas.

A sujeira espalhada pelo chão e o mau cheiro são os primeiros problemas apontados. “O cheiro de esgoto é impossível, e se sente sempre”, comenta o aposentado Carlos Alberto Borges, que frequenta o Calçadão diariamente. O odor, segundo a Secretaria de Urbanismo, vem das ligações irregulares do esgoto cloacal vindo das lojas na rede de esgoto pluvial, destinada ao escoamento de chuva.

O presidente do Sindilojas, Renzo Antonioli, soma a isso a sujeira que se acumula nos bueiros. “São verdadeiros depósitos de lixo e eu nunca vejo ser feito uma limpeza nos bueiros.” Ele alega que são despejados nas galerias até mesmo os dejetos dos alimentos vendidos por ambulantes. Já os papéis, embalagens e outros materiais jogados no chão não dependem apenas da limpeza contratada pela prefeitura. “Ninguém pode limpar durante 24h. A população às vezes não ajuda”, comenta Antonioli.

As bancas de vendedores ambulantes também são outro ponto de discórdia no centro da cidade. As áreas mais críticas são os trechos da Marechal Floriano entre o Calçadão e a General Osório, e da Andrade Neves, entre Marechal Floriano e Lobo da Costa. Com os ambulantes na calçada, o espaço para locomoção dos pedestres e a visualização das vitrines ficam prejudicadas. “Os camelôs deveriam descer para o camelódromo. Eles precisam trabalhar, mas não em cima da gente”, avalia a consumidora Fabiane Machado.

A idéia da prefeitura é fazer justamente isso. Mas para transferir as bancas que hoje estão no centro antes será necessário começar – e concluir – as obras de ampliação do camelódromo da praça Cypriano Barcellos. Enquanto isso não acontece, o plano da Secretaria de Urbanismo é reorganizar os ambulantes na Marechal Floriano. Conforme o secretário Luciano Oleiro, a faixa de estacionamento será transferida da esquerda, onde está, para a direita. As bancas irão descer da calçada para uma área reservada na faixa da direita, e o trânsito será deslocado para o outro lado. Na Andrade Neves, a idéia é deslocar as bancas em direção ao centro da via, para liberar o espaço para os pedestres.

Além de dificultar o fluxo, a presença dos camelôs é um problema para os lojistas, que têm as vitrines bloqueadas pelas bancas. Para ganhar atenção, os produtos das lojas acabam também na calçada, reduzindo ainda mais o espaço. “É uma concorrência desleal e uma situação provocadora. Eu não tenho como, hoje, pedir para um associado recolher os produtos. Quando as calçadas estiverem livres, se a prefeitura quiser nossa ajuda para isso, faremos com prazer”, afirma o presidente do Sindilojas.

Reforma do espaço custará R$ 2,5 milhões

Quem olhar para baixo verá remendos de cimento no lugar das lajotas quebradas; ao olhar para cima, postes apinhados de fios emaranhados poluem o visual. A solução definitiva para esses problemas deverá vir apenas com a realização de uma obra que pretende recuperar a estrutura do Calçadão. A reforma, orçada em R$2,5 milhões e com recursos que virão do Banco Mundial, deve começar no último trimestre de 2009, segundo a Unidade Gestora de Projetos (UGP), da Secretaria de Urbanismo. A reforma será bem-vinda não só pelos usuários, mas também pelos lojistas que, atualmente, têm as vendas prejudicadas pela situação do Calçadão, segundo Antonioli.

As mudanças começarão com o aterramento dos fios, que irão para o subsolo e eliminarão os postes atuais, os quais serão trocados por iluminação de praça. A rede de esgoto deve ser refeita, e as ligações de esgoto cloacal das lojas regularizadas, liberando o esgoto pluvial para sua função e eliminando o mau cheiro constante.

Em sequência, o piso deve ser todo refeito, sobre uma nova base, mais resistente para prevenir o desprendimento dos ladrilhos. Para finalizar, todo o mobiliário urbano (bancos, lixeiras etc.) será trocado, e os canteiros serão modificados a fim de melhorar a acessibilidade do local. Para que aconteça a mudança dos camelôs no novo espaço durante as obras, o assistente técnico da UGP Raul Odone explica que as duas obras, no camelódromo e no Calçadão, devem andar juntas, para que não haja conflitos. E o secretário de urbanismo alerta: se hoje a fiscalização age para que novos ambulantes não se instalem no Calçadão, no futuro a fiscalização irá trabalhar para impedir que outros tomem o local.

O sonho de Giovani demorou nove vestibulares

Publicação: domingo, 25 de janeiro de 2009 - jornal Diário Popular

Para pagar o curso mais caro da UFPel – pelo valor do material – acadêmico trabalhou como vendedor, entragador de revistas, porteiro e vigilante


O esforço redobrado de quem tem de batalhar para ganhar a vida e estudar ao mesmo tempo pode desanimar o sonho de fazer uma faculdade ou insistir em determinada profissão. Fazer diversos vestibulares sem sucesso também é um banho de água fria, mas não ver seu nome no listão nem sempre é motivo para parar. O formando em Odontologia Everton Giovani Moreira é exemplo da perseverança necessária a quem busca a graduação. Nem as dificuldades financeiras nem os nove vestibulares que enfrentou o fizeram desistir do sonho de ser dentista. Aos 37 anos, ele cursa o último semestre do curso considerado o mais caro da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), devido ao alto custo dos materiais, e afirma: "Valeu a pena. Faria tudo de novo e, se fosse preciso, tentaria entrar durante mais dez anos."

Natural de Bagé, em Pelotas Giovani teve todo o tipo de emprego, já que não podia contar com o apoio financeiro da família. Trabalhou como vendedor, entregador de revistas, porteiro e vigilante, deu aulas particulares para alunos do Ensino Médio, foi funcionário público municipal (função da qual abriu mão quando entrou na faculdade) e garçom, ocupação que até hoje o sustenta. E estudou em todo tipo de pré-vestibular. "Fiz todos que tem por aí, e em muitos fui bolsista. Trabalhava no próprio cursinho em um turno e estudava no outro". Passou no oitavo vestibular para Odonto, depois de ter passado, no inverno anterior, para Administração. "Entrei no ano em que não fiz curso. Estudei sozinho e estava mais tranquilo, também", conta.

Dicas

Giovani conta que, para conquistar uma vaga, o vestibulando tem de identificar suas falhas e se concentrar em melhorar nessas áreas. Identificar o erro pode ser o detalhe que falta para uma prova bem-sucedida.

A dificuldade de encarar uma federal, em que os cursos são, em sua maioria, diurnos, assusta quem tem de trabalhar para conquistar um diploma e, na visão de Giovani, acaba afastando muitos da carreira desejada. "Perder tempo" com os sucessivos processos seletivos também complica a vida de quem quer - ou precisa - de retorno rápido da profissão escolhida, mas mudar a escolha pode significar um arrependimento anos mais tarde. O futuro dentista que decidiu investir em sua vocação hoje se diz apaixonado pelo que faz e não demonstra arrependimento.

Formatura

Na reta final, o desafio agora é participar da tradicional formatura no Theatro Guarany, em agosto. Diferentemente do que ocorre em outras universidades do Estado, como a Federal do Rio Grande (FURG) e a Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o custo da cerimônia de colação de grau externa em Pelotas é arcado pela turma de graduandos. "Seria interessante a federal dispor um lugar para fazer as formaturas, para que o aluno não fique refém das produtoras", opina.

Giovani não está sozinho em sua luta. Ele faz parte do novo perfil de universitários e aspirantes a graduandos que dependem apenas de si mesmos para alcançar a faculdade. O estudante conta que vê colegas passarem 30 horas sem dormir para assistir às aulas, trabalham à noite e frequentam a faculdade durante o dia ou que, como ele, têm domingos e feriados como dias de trabalho. "Claro que apenas estudar é melhor, mas ter de trabalhar não pode ser um empecilho", avalia.

Tragédia xavante completa uma semana

Publicação: quinta-feira, 22 de janeiro de 2009 – jornal Diário Popular

Viaduto da RS-471, onde ônibus com a delegação do Brasil capotou e resultou na morte de três integrantes da delegação, vira ponto de peregrinação de moradores e viajantes


Há uma semana do acidente que transformou em luto o preto do escudo Xavante, muitos dos que cruzam pelo viaduto de acesso da RS-471 à BR-392 param ou desviam seu caminho para ver as marcas deixadas pelo desastre. Perplexos com o cenário, viajantes e moradores das redondezas criticam a curva fechada e a sinalização do local, considerada adequada pelo Departamento Autônomo de Estradas e Rodagens (Daer).

Quem vem da RS-471 em direção a Pelotas, como a delegação do Brasil naquela noite de quinta-feira, tem à frente um declive que leva à alça de acesso, no qual o condutor logo vê a placa que indica a redução de 80 para 60 km/h. Alguns metros depois, a placa de redução para 40 km/h - que devem ser respeitados para se contornar a curva sem problemas - marca a entrada no viaduto.

O morador do 3º Distrito de Piratini, Lumar Carvalho, que costuma passar pelo trecho, considera muito perigosa as duas curvas fechadas que se sucedem no declive de acesso à rodovia, especialmente em dias de chuva. "É praticamente um espiral. Se não vier bem devagarinho não faz a curva." A atenção com o limite de velocidade é ressaltada por todos que passam por lá. E não há quem não aposte no excesso de velocidade como a causa da perda de controle do ônibus.
Quem vive por perto e precisa passar pelo viaduto constantemente, como Genésia Alves, moradora da localidade de Paraíso, em Canguçu, gostaria de ver a cruva acentuada melhor sinalizada e a proteção da pista reforçada com muretas de concreto. "Seguidamente carros caem ali. Seria bom se daqui (antes de começar o declive que leva ao viaduto) placas já avisassem da curva."

A ação mais imediata a ser tomara pelo Daer, responsável pelo trecho, é a reconstituição da proteção destruída no acidente. A estrada é considerada pelo órgão em boas condições e bem sinalizada. Mesmo assim o trecho será avaliado pelo programa Duplica RS, do Governo do Estado, que deve fazer um levantamento sobre as condições de todas as interseções entre estradas gaúchas. O estudo determinará se modificações serão feitas.

Afogada em inquéritos

Publicação: domingo, 18 de janeiro de 2009 - jornal Diário Popular

A realidade da 2ª Delegacia de Polícia de Pelotas, responsável pela cobertura de uma área com mais de 200 mil habitantes, impressiona pela precariedade. Por ano, até dez mil novos inquéritos chegam às mãos dos 18 policiais, que inúmeras vezes têm de priorizar os casos mais graves


A pilha de inquéritos pendentes impressiona. E os papéis que enchem a mesa do chefe da investigação da 2ª Delegacia de Polícia Civil são apenas as 8.881 registradas em 2008. A cada ano, entre oito e dez mil ocorrências chegam às mãos dos 18 policiais que, oficialmente, compõem a delegacia que atende uma população à qual poucas cidades do interior podem se equiparar. São exatamente 205.347 habitantes distribuídos pelas regiões urbana e rural de Pelotas e os municípios de Turuçu e Arroio do Padre. As ocorrências que inevitavelmente se acumulam ano a ano tomam conta de salas de trabalho apertadas, banheiros em uso ou desativados e até mesmo a cozinha da casa improvisada como delegacia.

Nas contas do chefe da investigação, José Portela, na prática são apenas 12 pessoas para atender milhares de ocorrências. No ano passado, cada um dos seis investigadores que compõem esse efetivo recebeu, por mês, uma média de 123 crimes a serem apurados, número que vai muito além da real capacidade de levantamento. “Uma investigação não leva um dia. Às vezes é preciso uma semana ou mais”, comenta Portela. O resultado disso é o visível acúmulo de trabalho e a maior parte das queixas nunca serem resolvidas.

Para o delegado regional da Polícia Civil, Gilnei Albuquerque, o efetivo está muito aquém do minimamente necessário, realidade não-exclusiva desse departamento. Em todo o Estado, seriam necessários pelo menos 9,4 mil policiais. O contingente atual, porém, chega a apenas cinco mil.

Conforme a 2ª DP, a previsão da Delegacia Regional é de 34 policiais, baseada em dados populacionais anteriores a 1999. O número ainda não seria o ideal para atender à demanda. Mesmo com toda a carência na apuração dos crimes, o Judiciário recebe mais inquéritos do que pode processar e os presídios do País estão lotados. “É necessário muito mais recursos humanos e materiais em todo o sistema”, comenta Albuquerque.

Em um cenário em que apenas 20% dos casos são efetivamente resolvidos e encaminhados ao Judiciário no prazo de 30 dias estipulado por lei, a única solução é priorizar os mais graves e o atendimento à comunidade que procura a delegacia. Para resolver com rapidez o caso da menina Sabrina Gonçalves Rosa, de 15 anos, que foi baleada e morta acidentalmente ao passar próximo a uma briga no loteamento Pestano no primeiro fim de semana do ano, a investigação da 2ª DP teve de parar todas as outras investigações pendentes e concentrar esforços.

Só assim a justiça esperada ansiosamente pela mãe da vítima pôde ser encaminhada com rapidez. O empenho permitiu a resolução em três dias, com a confissão do autor do disparo, mesmo depois das informações desencontradas que inicialmente apontavam para um caso de bala perdida e uma denúncia posterior de que o autor do disparo teria sido o padrasto da adolescente.

Trabalho que não pode ser adiado

Com toda a pressão que sofre, o dia-a-dia do policial é presumivelmente estressante e a carga semanal de 40 horas geralmente é extrapolada. “E eles não tiram as folgas que merecem, pelo comprometimento que têm com os casos, com as vítimas e com os colegas”, analisa o delegado regional, ao explicar que as horas extras de trabalho se revertem em dias de descanso e não em complemento ao salário.

O próprio chefe da investigação da 2ª DP é exemplo da carga excessiva com a qual todo policial tem de lidar todos os dias. Com férias por tirar referentes a 2006, Portela guarda no peito a marca do enfarte que teve enquanto trabalhava. “A cobrança é muito grande.” Contudo, a paixão pelo trabalho não diminui. Mesmo com todos os problemas – que incluem até mesmo a falta de um banheiro adequado dentro da delegacia – ele nem se imagina aposentado, longe da polícia.

Gente, tempo e meios para fazer mais

Para melhorar as condições de trabalho e, consequentemente, agilizar o atendimento à população, o chefe da investigação tem sugestões que vão além de duplicar o número de pessoal disponível à delegacia. Segundo ele, se houvesse uma delegacia dedicada a atender Laranjal e Colônia Z-3, o volume de trabalho da 2ª DP já diminuiria. “Com uma delegacia na praia, durante as operações de verão receberíamos apoio vindos de outros lugares”, exemplifica. Para tanto, Portela sugere que cada delegacia tome conta das ocorrências de trânsitos acontecidas em sua jurisdição, a fim de que os recursos da Delegacia de Trânsito possam ser transferidos a um novo distrito policial.

Enquanto isso não acontece, medidas como um prédio novo ou a melhoria do atual – que Portela considera bem localizado para o atendimento, mas que não oferece as condições ideais – e a aquisição de viaturas mais robustas, resistentes às estradas de chão batido da zona rural, ajudariam a melhorar o trabalho feito pela polícia civil. “Nós precisamos de gente, tempo e meios para resolver todos os casos. Com máquina de escrever não dá.”

Por enquanto, apesar de todos os problemas, a 2ª DP ainda busca oferecer um bom atendimento a todos que a procuram. “No mínimo, temos que mostrar que vamos tentar resolver cada ocorrência”.

Problemas

* Falta pessoal para atender a demanda.

* Viaturas inadequadas para algumas apreensões, como a caça-níqueis, e ao atendimento na zona rural.

* No prédio da delegacia falta espaço para depósito de apreensões e até mesmo os banheiros estão inadequados. Água, só de balde.

* Materiais básicos como uma impressora estão em falta.

* Acúmulo de trabalho e de funções é realidade constante.


Problema gigante

Com uma população atendida comparável ao total de habitantes da cidade de São Leopoldo, na região metropolitana de Porto Alegre, a 2ª Delegacia de Pelotas (2ª DP) conta com um efetivo de 18 policiais civis, segundo dados da Delegacia Regional. Para a área que abrange a Zona Norte, as praias e a zona rural de Pelotas, além dos municípios de Turuçu e Arroio do Padre, o efetivo previsto é de pelo menos 34 pessoas – esse número foi levantado há mais de dez anos.

Quadro

Efetivo total de policiais: 18
Número de investigadores: 6
Número de viaturas: 3
Efetivo total previsto: 34

População total atendida: 205.347 habitantes
Média de policiais por habitante: 1/11.408
Média prevista de policiais por habitante: 1/6.039

Área da 2ª DP

Pelotas rural: 21.193 habitantes
Pelotas urbana: 176.301 habitantes (exclui parte do centro – linha divisória na avenida Bento Gonçalves – Fragata, Simões Lopes, Porto e Navegantes)

Estão na área de cobertura
Laranjal, Colônia Z-3, Centro – parte norte, Areal, Três Vendas, Dunas, Getúlio Vargas, Pestano, Obelisco, Santa Terezinha, Arco-Íris, Vila Castilho

Ocorrências

Em 2008: 8.887
Ocorrências por policial: 493 por ano
Ocorrências por investigador: 1.481 por ano
Média de ocorrências/mês por investigador: 123

As circunstâncias da queda

Publicação: sábado, 17 de janeiro de 2009 – jornal Diário Popular – Edição Especial Acidente Grêmio Esportivo Brasil

A pouco mais de uma hora do destino, a equipe do Brasil de Pelotas que voltava de um amistoso em que venceu o Santa Cruz, na cidade de Vale do Sol, no centro do Estado, sofreu um acidente que tirou a vida de três integrantes e feriu praticamente todos os aproximadamente 30 ocupantes do ônibus. O caminho tomado era novo e há pouco tempo liberado para o tráfego de ônibus.

Conforme dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e da Polícia Civil, há 40 quilômetros de Canguçu o condutor Wendel Vergara, 29 anos, perdeu o controle no início da curva da alça de acesso da RS-471 à BR-392 e o ônibus da empresa Bosembecker tombou ainda na pista, na parte superior de uma espécie de viaduto com aproximadamente 35 metros de altura – o equivalente a um prédio de 12 andares. Em seguida, o veículo caiu no barranco e capotou mais três vezes. Alguns dos passageiros, entre jogadores e comissão técnica, foram arremessados para fora do coletivo.

A investigação das causas, a cargo da Polícia Civil de Canguçu, parte de hipóteses comuns a outros acidentes: imperícia do motorista, defeito mecânico ou condições desfavoráveis na pista. A confirmação ou não dessas teorias deve ser divulgada apenas com o laudo pericial, a ser remetido à Justiça em até 30 dias. Enquanto isso, especulações giram em torno das circunstâncias encontradas pelo resgate.

Apesar de a PRF o considerar em bom estado de conservação e bem sinalizado, o trecho é tido como perigoso mesmo por quem costuma transitar entre a RS-471 e a BR-392, como o delegado responsável pela investigação, Félix Rafain. “Para quem não conhece, o trajeto pode ser bem difícil.” Segundo relato do próprio motorista à polícia, o veículo chegou à curva além do limite de 40 km/h para o trecho, depois de ter reduzido de 80 a 50 km/h. Sem conseguir vencer a curva acentuada, o ônibus capotou. A proprietária da empresa, Adriana Bosembecker, após conversar com o condutor, afirmou que a sinalização indicando a redução necessária seria precária. Mais: uma leve cerração poderia ter atrapalhado.

A velocidade exata em que viajavam será determinada pela perícia, apesar do sumiço do tacógrafo - aprelho que registra todos os dados do deslocamento do veículo, inclusive as velocidades alcançadas - que não foi encontrado junto ao acidente. Para a Polícia Rodoviária Federal, o aparelho não teria sido arrancado com a batida, portanto, teria de ser retirado por alguém com conhecimentos técnicos. Além da polícia, a empresa responsável pelo ônibus afirma querer que o aparelho e o disco de papel que grava os dados sejam encontrados.

Sem cinto

Para o chefe da 7ª delegacia da polícia rodoviária federal, inspetor Zanini, o uso de cinto não seria determinante para minimizar os danos do acidente. Ele explica que em uma colisão fontral o cinto faria diferença, mas no caso de capotagens ele não é o principal fator. “Se estivessem de cinto, as lesões poderiam ser na cabeça”, analisa.

Carro especial para o time

O ônibus em que a delegação viajava era especialmente pintado na cor vermelha do Brasil – o time do Pelotas costuma viajar em um azul – e era conduzido por Vergara a pelo menos um ano. Segundo a Bosembecker, o veículo de 2007 havia passado por revisão há duas semanas, e o motorista era saudável, estava descansado para a viagem e tinha experiência em viagens turísticas. “Mas esse caminho, que é novo, poucos motoristas conhecem”, explica Adriana sobre a pouca experiência do condutor no trecho.

A mobilização é de prata, a chance é de ouro

Publicação: domingo, 11 de janeiro de 2009 – Jornal Diário Popular


Cidade pouco se prepara para receber, em uma semana, os 2,3 mil vestibulandos da UFPel e suas famílias de outros municípios


Depois de uma maratona de vestibulares – só em janeiro já foram oito dias de provas entre a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) –, o estudante Gustavo Sicco, 19 anos, candidato ao curso de Medicina, vem a Pelotas para as últimas provas dos sete vestibulares para os quais se inscreveu e presta desde novembro. Natural de Jaguarão, o estudante que há dois anos se prepara em Porto Alegre para entrar na universidade é um dos pelo menos 2,3 mil vestibulandos (20% do total de concorrentes, segundo estimativas) que devem vir de outras cidades tentar uma vaga na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) dias 17 e 18. Apesar desta intensa mobilização que o município irá registrar dentro de uma semana, o clima de férias reinante na cidade há poucos dias das provas ajuda a reforçar a falta de preparativos especiais para receber os visitantes que vêm, sozinhos ou acompanhados, de todo o País. Estudantes de fora que, em poucos meses, podem ser novos moradores e consumidores locais.

O volume é expressivo, tanto que 90% da rede hoteleira já está reservada e a ocupação deve chegar a 100% no dia dos exames, segundo estimativa do Sindicatos dos Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares (SHBRS). Essa ocupação, conforme o diretor do SHBRS, Eduardo Curi Hallal, se compara aos fins de semana da Fenadoce. “O vestibular fora de dezembro vai recuperar as perdas de janeiro e melhorar a ocupação, que caiu 30% em relação a 2008 por causa do câmbio desfavorável”.

A alta temporada de provas para os hotéis também tem reflexo no comércio. As compras feitas pelos estudantes e o tempo livre de seus acompanhantes para conhecer a cidade e visitar o comércio é outro indicador da importância turística e econômica do envento. Pela experiência em anos anteriores, o presidente do Sindilojas, Renzo Antonioli, acredita em um acréscimo do movimento no sábado pela manhã, período durante o processo seletivo em que as lojas estarão abertas.

Mesmo com o aumento no movimento, Antonioli não vê Pelotas se preparar para receber novos consumidores em potencial. “Poderia haver uma integração muito maior entre Universidade, comércio, hotéis, restaurantes e turismo. Falamos nisso há muito tempo, mas não agimos”, lamenta.

E a união dos potenciais de comércio, serviços e turismo que poderia não só oferecer uma boa estada, mas também conquistar futuros clientes e moradores, segue desarticulada.

Ideia errada de recepção natural

O diretor do Centro Especializado em Seleção (CES) da UFPel, Cláudio Duarte, informa que nenhuma estratégia especial, além da organização das provas, é desenvolvida para receber os estudantes que vêm de outras localidades para o Vestibular 2009, o maior em número de vagas e procura dos últimos anos. O motivo: acreditar que não é necessário.

A justificativa é o porte médio da cidade que, por si só, ofereceria todas as informações e os serviços importantes aos vestibulandos. “A universidade não passa informações diretamente, apenas pelo site”.

Na página oficial do vestibular, além dos dados essenciais ao concurso, como edital e consultas individuais, somente a divulgação das hospedagens alternativas – em pensionatos e residências interessadas em receber estudantes – é feita. Nenhuma informação sobre a cidade está disponível para o futuro universitário da cidade. “Acredito que a prefeitura irá preparar [uma estratégia especial]”, diz Duarte.

Já na Prefeitura, os esforços de Turismo estão voltados para as praias e o veraneio, e o serviço de informações turísticas receberá os estudantes da mesma forma que trabalha durante todo o ano. Na Rodoviária, grande terminal de chegada desse grupo, o posto oferece materiais gráficos com mapas e informações sobre Pelotas. “Não cabe à Prefeitura articular estratégias para o vestibular, e sim à UFPel. Nós vamos preparar a cidade, mas não diretamente para as provas. A estrutura de serviços é a que já existe”, explica o secretário de Comunicação Luiz Carlos Freitas.

A única atenção necessária por parte da prefeitura diz respeito ao transporte. Na semana da prova a Secretaria de Segurança, Transporte e Trânsito irá solicitar às empresas de ônibus que aumentem a frota para atender os horários de deslocamento para a prova, próximo às 8h. “Mas pelo que vimos em anos anteriores, o que já fazemos atende as necessidades do dia”, afirma o secretário Jacques Reydams.

Falta mais articulação

Como nenhum incidente decorrente do fluxo de visitantes nos dias de vestibular costuma ser registrado, fica a impressão de que Pelotas atende todas as necessidades dos vestibulandos. Contudo, para o SHBRS e para o Sindilojas, a movimentação da cadeia turística com o vestibular poderia ser muito maior.

“Saber as datas com antecedência é o ponto de partida para a integração e para a ação”, afirma Antonioli. Com uma articulação feita com, no mínimo, dois ou três meses de antecedência, talvez fosse possível manter o comércio aberto no sábado do processo seletivo e promoções poderiam ser feitas.

Algumas idéias sugeridas pelo presidente do Sindilojas seriam parcerias entre hotéis e comércio ou comércio e restaurantes para oferecer descontos, bem como colocar à disposição nos locais de prova pessoas que oferecessem orientações de lazer e de compras ou vans para transporte dos acompanhantes a pontos turísticos e comércio central. “Temos de tornar tudo mais profissional.”

Mesmas datas

A integração e a divulgação de datas é uma necessidade para todos os setores envolvidos no turismo. “Um problema é a sobreposição de eventos em um mesmo fim de semana, como o vestibular no mesmo fim de semana que a formatura da Medicina, ocorrido em outros anos. São duas datas com boa ocupação que, juntas, causam falta de vagas”, comenta o diretor da SHBRS. Para ele, um calendário de eventos unificado para o município ajudaria na organização e potencializaria os ganhos.


O que dizem


“Faz-se necessário para um futuro próximo estar integrado e criar um calendário de eventos e uma programação”. Renzo Antonioli, presidente do Sindilojas


“Ficamos no aguardo de que saia a data das provas para podermos nos organizar”. Eduardo Curi Hallal, diretor do Sindicato dos Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares


“Não cabe à prefeitura articular estratégias para o vestibular e sim à UFPel. Nós vamos preparar a cidade, mas não diretamente para as provas. A estrutura de serviços é a que já existe.” Luiz Carlos Freitas, secretário de Comunicação