Da contravenção para o bem da comunidade

Publicação: domingo, 26 de abril de 2009 – jornal Diário Popular

As mais de 300 máquinas caça-níqueis que lotam delegacias e depósitos judiciais de Pelotas podem virar computadores para o serviço público

Elas enchem depósitos judiciais e atravancam delegacias de polícia. Só em Pelotas, estima-se que pelo menos 300 máquinas caça-níqueis estejam em poder do judiciário, e ao invés de serem destruídas, destino mais comum quando os processos nos quais são prova são concluídos, os objetos originalmente projetados para a contravenção podem virar computadores a serem doados a instituições carentes, escolas e até mesmo à administração pública.

A pedido do Diário Popular, o Pró-Reitor Adjunto de Extensão do Instituto Federal Sul-rio-grandense, Miguel Baneiro, e o professor do curso de Eletrônica, Rafael Galli, visitaram a 2ª Delegacia de Polícia Civil de Pelotas (2ª DP) e, ao ver os componentes dos caça-níqueis lá depositados, confirmaram a viabilidade de sua transformação. “O equipamento que tem aí é muito melhor que muitos que temos”, comenta Galli. Paças básicas como monitores LCD, processadores, placas de som e vídeo, fonte de alimentação, pentes de memória e, em alguns casos, nobreaks compõem os aparelhos de jogos. Com o acréscimo de um disco rígido (HD), para o armazenamento de dados, e periféricos como teclado e mouse, computadores totalmente desvinculados de sua origem poderiam ser confeccionados.

Os custos de um projeto como esse, se feito a partir de parcerias, poderia ser mínimo, afirma Baneiro. Para ele, a participação de Ministério Público, iniciativa privada e a comunidade, com a doação do material complementar que geralmente é descartado quando substituído em empresas ou até em casa, viabilizaria a iniciativa. E se inspira em outros projetos do IF-Sul, que utilizaram materiais que virariam sucata e acabaram premiados, como o carro elétrico desenvolvido por alunos.

Ver as máquinas terem um destino diferente do lixo seria uma inquietação à menos para o chefe da investigação da 2ª DP, José Portela. “Isso poderia ser revertido para sociedade de outra forma, o mal fazendo o bem. Só não posso admitir que isso vai virar em nada”, comenta ao lembrar as diversas máquinas que viu terem seus componentes inutilizados pela ação do tempo ou pela destruição determinada judicialmente.

Para ele, utilizar a mão de obra de jovens apenados ou em situação de risco para a montagem dos PCs seria o ideal, já que os capacitaria para o mercado de trabalho. “As pessoas dos órgãos competentes tem que conversar para resolver esse problema.”

Entretanto, a 2ª promotora de Justiça criminal, Maria Fernanda Pitrez, responsável por toda a operação em torno dos caça-níqueis na cidade, não quis dar entrevista ou se pronunciar por meio de sua assessoria de imprensa sobre o assunto.

Projeto Alquimia

A ideia não é nova; cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e de outros cinco Estados já têm projetos de inclusão digital que beneficiam tanto os aprendizes que fazem a montagem dos computadores com as peças das máquinas de azar quanto aqueles que recebem os equipamentos.

Em Porto Alegre, o Projeto Alquimia, nascido de uma parceria entre o Ministério Público e o Centro Social Marista, monta os computadores a partir das peças que podem ser aproveitadas e de outros equipamentos de informática que seriam descartados. A madeira segue para uma divisão de marcenaria, e na mão dos aprendizes vira móveis e material para artesanato. Os demais custos do projeto são cobertos pelos valores apreendidos dentro das máquinas.

Fazer o reaproveitamento do material beneficia também o ambiente. Metais pesados presente nos componentes, como mercúrio, cádmio, chumbo e cromo, se tornam uma fonte de contaminação de água e solo com a destruição e descarte no lixo comum.

Da Austrália para a América Latina sobre duas rodas

Publicação: quinta-feira, 16 de abril de 2009 – jornal Diário Popular

Eles trocaram a segurança da casa em Brisbane, Autrália, pela vida em cima de uma moto BMW. Carol, 47 anos, e Ken Duval, 56, estão desde setembro em uma aventura de três anos para conhecer os mais diversos recantos da América Latina. Não é a primeira vez que o casal sai pelo mundo. Na primeira viagem, eles rodaram 200 mil quilômetros em 57 países da América do Norte, Europa, África e Ásia, entre 1997 e 2001. A parada para conhecer Pelotas é a primeira de uma série pelo interior e pela costa do Brasil.

A moto é o meio de transporte e o lar do casal. As poucas peças de roupa, o material para acampamento e uma ‘cozinha’ – nada mais que fogareiro, panelas e alguns utensílios – seguem nos baús que ladeiam o veículo. “É preciso se desapegar das coisas materiais. É um aprendizado”, afirma Carol.

Para se preparar financeiramente para a aventura, eles afirmam ter trabalhado muito e vendido a casa, uma forma também de evitar a preocupação com o patrimônio. “Tudo o que possuímos está na moto”, afirma Ken.

A decisão de viver a vida na estrada foi tomada na década de 1980, depois de rodarem por nove meses pela Austrália e pela Nova Zelândia. “Eu sempre fui motociclista, ela sempre foi viajante. Unimos as duas coisas”, explica Ken.

Popularização da Internet passa pela lan house

Publicação: edição conjunta de domingo e segunda-feira, 12 e 13 de abril de 2009 – jornal Diário Popular

Mais rápida e em expansão, Internet banda larga ainda é realidade de poucos. Para a maioria, os locais pagos são a principal alternativa

Relatórios sobre a Internet no Brasil divulgados no final de março mostram crescimento do acesso a banda larga em 2008, na contramão da crise mundial. O Barômetro da Cisco, pesquisa encomendada pela empresa de tecnologia de mesmo nome, averiguou um aumento de 46% no número de conexões em todo o País. Para o Ibope Nielsen Online, o crescimento do acesso à rede por banda larga, medido pelo número de usuários ativos e não apenas pelo de pontos de conexão, foi de 24%, entre fevereiro de 2008 e o mesmo mês de 2009. Mas estes números nem sempre representam o contato que o brasileiro tem com a Internet. Mesmo em expansão, a conexão por banda larga ainda é luxo e as projeções são baixas e apontam que apenas entre 5,4% (Barômetro da Cisco) e 11,2% (Ibope Nielsen Online) dos brasileiros podem navegar com rapidez.

O acesso à Internet banda larga ainda não está disponível para a maioria e a professora da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Regina Trilho Otero, nota isso até mesmo dentro da sala de aula. Pelo menos metade de seus alunos não têm Internet em casa. A saída para eles é a de muitos brasileiros: a lan house, um estabelecimento onde se paga pelo uso do computador e da Internet conforme o tempo utilizado, que chega a custar R$ 1,00 a hora de conexão. É nela que a verdeira inclusão digital está acontecendo, segundo a especialista. “E dá gosto de ver por que quem não tem o computador 100% do tempo faz um uso ávido quando pode.”
Infraestrutura é a principal barreira

O crescimento que se vê hoje poderia ser muito maior na avaliação do analista de mídia do Ibope Nielsen Online, José Calazans, que vê na baixa penetração da Internet no País uma oportunidade de crescimento rápido. “A principal barreira é a infraestrutura de banda larga. Muitas pessoas de outras regiões (fora de São Paulo), mesmo que queiram e tenham renda suficiente para bancar o custo de uma conexão, não conseguem adquirir porque o serviço ainda não está disponível.” A falta de oferta também está relacionada à renda, porque, como explica Calazans, nas regiões das cidades em que o serviço é oferecido a renda média da população é mais alta.

Preço alto e falta de opções para contratar a conexão para a residência lota lan houses de bairro como a de Edson Mesquita, no Navegantes. “Aqui só tem uma operadora e sem a concorrência é preciso assinar uma franquia de telefone alta e pagar a banda larga, que é cara. É mais fácil dar de R$ 1,00 em um R$ 1,00 para o teu filho ir na lan house.” E o foco do negócio de Edson foge do estereótipo de casa de jogos online. O público dele procura um lugar tranquilo para estudar, pesquisar e conversar na Internet. “É um bairro de poder aquisitivo baixo e a Internet é uma realidade atual. A lan house faz parte dessa realidade.”

Regina, que concorda com a importância desses espaços públicos de acesso, ressalta a importância que o brasileiro de baixa renda dá ao uso da Internet. “Ela tem um significado muito forte, é vista como uma oportunidade de mudança de vida.”

Boa parte do público de Edson tem uma particularidade: possui computador em casa, mas não a Internet rápida, como Jackeline Amaral, que desistiu da conexão a rádio que mantém e vai direto utilizar as máquinas de Edson. Apesar de todos os computadores ocupados, Jackeline esperava ansiosa pela conexão enquanto conversava do o Diário Popular. A visita daquele dia era para saber o resultado de um concurso feito em Santa Catarina. A resposta da mudança de vida viria pela rede.

Tecnologia ajuda a disseminar o sinal móvel

Estender a rede física da Internet fixa é um problema e impede que muita gente possa conectar. Entretanto, a tecnologia móvel de conexão banda larga que chegou ao País no ano passado já se mostra como uma alternativa para as áreas sem cobertura por cabo ou ADSL. As operadoras não divulgam números desse crescimento – de planos fixos ou móveis -, mas tanto o analista de mídia quanto a pesquisadora apostam na ampliação do número de usuários a partir da tecnologia 3G, por exemplo.

Oferecida pelas operadoras de celular, a conexão que usa um modem pouco maior que um pen drive quando ligada ao computador pode ser acessada de qualquer ponto dentro da área de cobertura da rede. Por enquanto, o acesso ainda é caro, mas há uma tendência de popularização.

Um bem para a casa

Mesmo com as dificuldades, o brasileiro vê a Internet como um bem a ser mantido dentro de casa e isso é garantia de crescimento contínuo, na análise de Calazans. E é assim que vê a sua conexão o estudante de Jornalismo Diego Balinhas. Natural de Rio Grande, com 13 anos já usava acesso discado e, para se mudar para o Cassino, primeiro a Internet teve de ser instalada lá. Há nove meses morando em Pelotas, Diego tem hoje um plano de dez megabytes por segundo (mbps) – um dos mais rápidos disponíveis na cidade, que não passam de 20 mbps, e muito mais veloz que as populares velocidades entre 500 kbps e um mbps.

Por enquanto os dez mbps são uma “degustação” oferecida pela operadora desde o início de março e Diego paga pouco mais de um quinto do valor que o link realmente custa. Promoção conquistada depois de horas de negociação com o teleatendimento. Valeu a pena. Com essa conexão, em pouco mais de dez minutos ele baixa um filme a partir de sistemas de compartilhamento de arquivos. “A navegação é quase instantânea. Só demora o que depende dos outros, como quando o servidor de uma página está sobrecarregado. Em dia de listão, por exemplo, nem a melhor conexão consegue entrar no site da universidade.”

Essa quase instantaneidade é extremamente útil ao aprendizado, afirma Regina Trilho Otero. Segue o ritmo do pensamento e a pessoa não se dispersa. "Com o computador, quando se pensa em algo é só seguir o link do pensamento.” Por isso a ampliação dos pontos de acesso a banda larga – e consequentemente a expansão do número de pessoas que usam cada conexão – é tão importante. Enquanto não chega à todas as residências, os brasileiros com seu jeitinho tentam fazer parte da rede mundial de computadores. Para os especialistas, é uma questão de tempo para que os 62,3 milhões que têm acesso à Internet em algum ambiente se multipliquem.

Saúde colocou 13 mil pessoas na estrada em 2008

Publicação: domingo, 29 de março de 2009 – jornal Diário Popular

Número corresponde ao total de pacientes que precisaram de atendimento em outras cidades e usaram o serviço de transporte do município

Da noite para o dia, literalmente, o radialista aposentado Janir Pinheiro acordou sem enxergar. Era uma crise de glaucoma agudo, que sem aviso prévio comprometeu a visão do morador do Fragata. Três dias depois Janir era operado na Santa Casa de Porto Alegre, por intermédio da Secretaria de Saúde. De lá para cá, já são quatro anos de tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e 2.360 aplicações de laser, que, aos poucos, lhe devolvem a visão. O tratamento do glaucoma é um dos que não são oferecidos em Pelotas pelo SUS e Janir é uma das 13.470 pessoas que precisaram de atendimento médico fora de Pelotas em 2008.

O transporte para tratamento fora de domicílio é instituido pelo SUS como responsabilidade do município de origem. Os casos encaminhados a outras localidades representam 0,4% do total de atendimentos do sistema público em Pelotas, que mais recebe pacientes de fora do que os manda. Mesmo com o baixo índice, os custos com o transporte – que envolvem locomoção, diárias, passagens, contrato de alguns veículos e manutenção de outros - chegaram a R$ 1.512.000, o equivalente 1,5% do orçamento anual da Secretaria da Saúde, conforme dados levantados pela própria pasta.

“Tudo começa no posto de saúde”, afirma o secretário Francisco Isaías sobre como esse público chega aos hospitais e consultórios de Porto Alegre, Rio Grande, Bagé e Lajeado, em sua maioria. Depois de diagnosticado, o paciente que precisa de algum dos serviços não oferecidos pelo SUS na cidade é encaminhado pelo Departamento de Serviço Social da SMS, que faz o contato e agenda o atendimento.

“Todo dia sai um ônibus cheio às 3h30min”, comenta Janir, sobre sua experiência de consultas na capital, destino de 11.394 dos que consultaram fora no ano passado. Microônibus, vans e ambulâncias também atuam na condução, que eventualmente recebe o reforço de transporte aéreo, em casos extremos, como na enchente na Zona Sul há dois meses.

Os casos encaminhados para outras localidades em geral são os mais complicados, concentrados nas áreas de oncologia pediátrica, cardiologia neonatal, traumatologia pediátrica de alta complexidade, oftalmologia ligada à retina, traumatologia de coluna, transplantes de coração, fígado e rim, além de alguns casos de reabilitação de portadores de necessidades especiais, conforme o secretário. “Nós atendemos também muitas ordens judiciais, que indicam o acesso a determinado serviço em determinado lugar.”

Para diminuir o volume de atendimentos fora, Isaías afirma que a Prefeitura trabalha para qualificar os serviços de oncologia da FAU/UFPel e da Santa Casa, bem como o de oftalmologia da Beneficência Portuguesa, a fim de ampliar as possibilidades de atendimento. Na área da traumatologia um investimento de R$ 366 mil será feito numa parceria firmada entre a prefeitura e a Santa Casa, o que deverá criar 29 leitos em uma nova ala traumatológica. Economia a longo prazo para o município, mais conforto para os pacientes.

Números da Saúde em Pelotas (SUS) - 2008

Internações: 19.644
Consultas a especialistas: 46.494
Atendimentos de alta complexidade: 23.175
Atendimentos em ambulatório: 2.990.237
Casos atendidos em outros municípios: 13.470
Total: 3.093.020
Fonte: Secretaria de Saúde

A safra do camarão no divã

Publicação: terça-feira, 24 de março de 2009 – jornal Diário Popular

Pesquisadores e autoridades são contra a mudança na lei que permitiria a captura do curstáceo após a avaliação do seu tamanho e não mais pelo calendário, a partir de 1º de fevereiro de cada ano

A mudança no calendário da safra do camarão no estuário da Lagoa dos Patos, acenada pela Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca (Seap) na semana passada, foi bem recebida entre os pescadores artesanais de Pelotas, mas com reservas por especialistas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e da Universidade Federal de Rio Grande (Furg). A categoria defende que a abertura da safra dependa do tamanho alcançado pelo crustáceo e não mais seja fixa entre os meses de fevereiro e maio. Um estudo para analisar a viabilidade da proposta foi prometido na reunião de quarta-feira entre o ministro Altemir Gregolin e o deputado federal Fernando Marroni (PT), que acompanha o caso.

Os pescadores veem a flexibilização das datas da safra como um impasse que precisa ser resolvido, afirma o presidente do Sindicato dos Pescadores da Colônia Z-3, Nilmar Conceição. Atualmente a abertura oficial da safra ocorre no dia 1º de fevereiro, o que, segundo a categoria, prejudica os negócios de quem vive da pesca. É comum o camarão atingir o tamanho ideal, de nove centímetros, durante o período em que a captura está proibida. Enquanto para os pescadores isso significa ver toda uma safra ir embora, exemplifica Conceição, para o Ibama significa a manutenção da espécie pesqueira.

O chefe do escritório regional do instituto em Rio Grande, o oceanógrafo Sandro Klippel, explica que essa restrição garante ao camarão que atinge os nove centímetros nos meses anteriores a chance de sair do estuário para o mar – e consequentemente, a possibilidade de se reproduzir.

Retrocesso

Antes do sistema atual, de safra e defeso, a monitoração e abertura do período de pesca conforme o tamanho do camarão já foi praticada, diz o diretor do Instituto de Oceanografia da Furg, Fernando Dincao. Para ele, retomar o sistema que já se mostrou falho é um retrocesso. A dificuldade em se ter uma liberação segura está na variação do tamanho do camarão encontrado nos diferentes pontos da Lagoa, que está em estágios de desenvolvimento distintos em cada ponto do estuário. “Se fosse abrir por tamanho, em alguns lugares não se iria pescar nunca e em outros se teria camarão para pesca quase sempre”, explica, ao citar o monitoramento do crustáceo na Lagoa dos Patos já feito pela Furg.

Dincao ressalta ainda que com várias datas de abertura de safra deixaria de haver o pagamento do seguro-desemprego para os pescadores, que hoje o recebem durante o defeso, impacto social também apontado pela Seap.

Na avaliação do especialista, a abertura em função do tamanho do camarão provavelmente não se concretizará, pelo dano e a dificuldade de administração que isso traria. “Já não conseguem administrar bem do jeito que está”.

Para o Ibama, a fiscalização também se tornaria ainda mais complexa. “Nós queremos a preservação dos estoques, mas seria ainda mais difícil controlar a depredação. Imagine o tempo que nós levaríamos medindo camarão?”, comenta o responsável pela fiscalização no Estado, Fernando Falcão.

Um meio termo entre a preservação e a manutenção da atividade econômica é o cenário atual, na avaliação de Klippel. “Já favorecemos mais a pesca que a preservação. Abrir e fechar várias vezes por ano a safra só interessaria aos pescadores. Não teria vantagem para o camarão”. A consequência, segundo ele, seria o agravamento da diminuição do crustáceo, maior do que a já ocorre.

O que diz a Seap

Para a Seap, antes de se falar em flexibilização do calendário é preciso receber os resultados de um estudo que irá bem além da safra do camarão e abarcará toda a atividade pesqueira do estuário. “A proposta é fazer uma atualização do diagnóstico socioeconômico e ambiental da Lagoa dos Patos e, então, inovar nos processos de gestão”, explica o diretor de Ordenamento, Controle e Estatística da secretaria, Mauro Rufino. A ideia do estudo é fazer um mapeamento da pesca na região, inclusive o levantamento de quantos profissionais realmente atuam na área. A partir desses dados será possível discutir o calendário da safra.

Contudo, Mauro adianta que a reivindicação dos pescadores pela flexibilização, apesar de justa, pode ser inviável operacionalmente. O motivo é o mesmo apontado pelo pesquisador da Furg: as variadas taxas de crescimento do camarão nos diversos pontos da Lagoa. Uma das alternativas seria ter uma abertura em cada local, mas essa seria inviável para a fiscalização. “Mesmo assim queremos discutir e fazer uma construção conjunta, quem sabe apareçam outras ideias”, avalia o diretor.

No caminho da extinção

Publicação: sexta-feira, 20 de março de 2009 – jornal Diário Popular

Substituída pela moeda, nota de R$1,00 transforma-se em peça de colecionador

Ver uma cédula de R$ 1,00 é cena cada vez mais rara desde que o Banco Central determinou, no iníco de 2006, o fim da fabricação dessas notas e a susbtituição gradual por moedas. O motivo é o custo e a praticidade, já que a vida útil de uma nota de alta circulação é bem menor que a de uma moeda. Por enquanto, a maior dificuldade provocada pela escassez do "beija-flor" tem sido no momento de efetuar depósitos bancários nos caixas eletrônicos. Os equipamentos não aceitam níqueis, o que atrasa aqueles que não querem perder tempo em bancos.

Na lotérica Agência Esporte, na rua Sete de Setembro, pela proximidade com a rede bancária é comum o pedido de troca de uma moeda por uma nota, mas atender o favor é difícil. “Se chegam a nós cinco notas de R$ 1,00 por dia é muito”, comenta Glaucia Barbosa, ao mostrar o caixa sem qualquer das verdinhas. As poucas estão em péssimo estado e são encaminhadas para o recolhimento.

Apesar de deteriorada pelo uso, a cédula mais baixa do real ainda é válida e deve ser aceita normalmente, já que a substituição foi programada para que o recolhimento ocorresse de forma natural, no ritmo em que a vida útil das notas chegasse ao fim. Conforme as notas rabiscadas, rasgadas ou coladas se inviabilizam para a circulação, são substituídas pelo Banco Central por moedas.

O Banco do Brasil, responsável pela distribuição do dinheiro no País, afirma por meio de sua assessoria que a única solução para os depósitos que precisam de R$ 1,00 para alcançar o valor exato é serem feitos diretamente no caixa. Está nos planos da rede bancária, em um futuro ainda distante, caixas eletrônicos que aceitem moedas e, quem sabe, até forneçam troco em depósitos. Enquanto isso, entrar na fila é a única solução.

Quando o problema mora na porta ao lado

Publicação: domingo, 15 de março de 2009 – jornal Diário Popular

As relações entre vizinhos nem sempre se apresentam amigáveis; em determinadas ocasiões as desavenças só são resolvidas na justiça

Barulho fora de hora, som alto, algazarra de crianças, vozes altas em brigas e namoros, batidas de saltos, latidos, miados, mal cheiro de animais de estimação, desrespeito ao espaço de estacionamento determinado para cada um, festas até altas horas no meio da semana. Nem sempre quem vive ao lado respeita as boas regras de convivência, e não se tem escolha: vizinho pode ser alguém passageiro ou um companheiro para toda a vida, e morar ao lado, em frente, em baixo ou em cima da casa de alguém pode se tornar um verdadeiro inferno. Quem passa por isso sabe bem. A receita para não cair nem provocar essa situação parece ser ter bom senso e respeito ao próximo, por mais difícil que isso pareça ser fazê-lo sem ferir a própria individualidade.

As desavenças entre vizinhos podem ficar tão sérias que os envolvidos preferem não se identificar para evitar represálias e agressões. No Fragata, um grupo de vizinhos há alguns anos se incomoda com uma boa ação que, para eles, passou dos limites e desde 2004 tornou a situação insuportável. Uma das vizinhas tem em casa uma expressiva quantidade de cachorros que foram recolhidos da rua – segundo os vizinhos incomodados, são pelo menos 70 animais, que a dona não confirma nem desmente –, mas o mau cheiro, as doenças, os latidos incessantes e os ataques a mordidas incomodam tanto os moradores da rua que a briga já chegou ao Ministério Público estadual. “Acho bonito defender os animais, mas isso está de mais”, reclama uma das vizinhas.

Entre os problemas já enfrentados na rua que tinha tudo para ser pacata, os incomodados relatam e mostram atestados médicos de uma infestação de sarna entre várias crianças e adultos e de mordidas, além de reclamarem do lixo gerado pelas fezes e os alimentos dos animais. Questionados sobre haverem tentado conversar antes de acionarem judicialmente a vizinha, eles são unânimes: “com ela não há diálogo”.

A responsável pelos animais afirma que se sente no direito de cuidar dos cachorros e questiona a idoneidade da vizinhança para fazer as reclamações, mas prefere não comentar nenhuma das acusações. O caso ainda tramita na justiça.

Os incomodados que se mudem?

Nas imobiliárias, chovem reclamações em sua maioria contra inquilinos, e grande parte por barulho. Quem não se emenda, além de receber advertências e multas, pode acabar despejado. A imobiliária Fuhro Souto, que também administra condomínios, explica que muitas vezes diante de tantas reclamações a única alternativa é o proprietário do imóvel pedir a desocupação. Chegam às administradoras de condomínios em Pelotas uma média de três reclamações por semana contra os atos de quem mora sob o mesmo telhado, todos em busca de uma mediação que devolva a paz, especialmente nos horários de descanso.

E quando o vizinho-proprietário é a dor de cabeça do vizinho-inquilino? “Nós temos um caso em que um inquilino reclama do barulho das crianças do vizinho, proprietário do apartamento em que mora, brincando à meia-noite ou às 2 da manhã. Ele está tão incomodado que quer sair do imóvel”, comenta a auxiliar administrativa dos condomínios da imobiliária, Carmen Viegas.

O problema, nesses casos, pode estar na rotatividade entre os inquilinos do prédio, um motivo a mais para que o vizinho seja tolerante com o próprio barulho e não mude essa realidade. Mas ter de abandonar a própria casa é uma medida extrema; o ideal seria chegar a um consenso. “Para viver em condomínio é necessário haver flexibilidade, porque praticamente se mora junto de todo mundo. O teu comportamento afeta o outro.”

Na promotoria de justiça criminal de Pelotas, ligada ao Ministério Público Estadual, chegaram em fevereiro aproximadamente 1.900 termos circunstanciados (TCs) relacionadas a brigas entre vizinhos, segundo estimativas, o que representa 40% do volume total de TCs no mês. A maioria está relacionada à perturbação do sossego alheio e perturbação da tranquilidade; a primeira é feita sem a intenção de incomodar o vizinho, já a segunda é uma ação intencional. E isso vai do som alto no meio da noite a coisas jogadas propositalmente no pátio ao lado.

Os responsáveis por mediar as disputas não estão livres de sofrer com seus próprios vizinhos. Na imobiliária Raphael, toda semana o telhado precisa de reparos por conta de garrafas atiradas do prédio contíguo. Fernando Vasconcelos relata que no início achavam que os projéteis eram uma forma de represália contra o barulho de um cão de guarda que mantinham, mas depois de retirado o cachorro, os lançamentos continuaram. “Já tentamos de tudo, até colocar uma câmera de segurança para identificar quem joga”. Sem sucesso nas negociações, a disputa também acabou na justiça.

Mas há quem prefira o diálogo com o colega de prédio. Uma moradora de um condomínio pequeno, que prefere não se identificar, resolveu conversar com o casal de vizinhos barulhentos antes de procurar a administradora do condomínio. E deu certo. “Eu parei eles no corredor e comentei que as brigas e o namoro estavam muito altos. Eles ficaram um pouco constrangidos, acharam um certo exagero, mas prometeram melhorar.”

Para fazer isso, foi preciso coragem de encarar a pessoa e tentar acabar com o incômodo. A maior parte dos condôminos prefere a intermediação da administradora do condomínio para evitar atritos, afinal, o convívio diário irá continuar, agradando ou não. “A empresa tem de ter a sensibilidade de ouvir as partes, mas a um mesmo tempo ser firme para resolver”, pondera Carmen.