A pesquisa perde, a história ganha

Publicação: segunda-feira, 9 de março de 2009 – jornal Diário Popular

Pesquisar a região mais a fundo é o objetivo da saída do historiador, professor e escritor Mario Osorio Magalhães da Universidade Federal de Pelotas, depois de 34 anos dedicados ao ensino

Para os amigos e colegas, é um apaixonado. Uma paixão evidente pela história da cidade em que nasceu e por divulgar esse passado. Ao se falar de Mario Osorio Magalhães, seria impreciso atribuir-lhe uma ou outra profissão: historiador, escritor e professor se complementam. No ano em que completa 60 anos – 34 deles dedicados à docência na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) –, Mario se despede da sala de aula. Para marcar a saída, o Instituto de Ciências Humanas (ICH) oferece nesse semestre uma última oportunidade aos alunos de cursar sua disciplina História de Pelotas, de caráter optativo e dessa vez aberta a acadêmicos de todos os cursos da instituição.

O afastamento é justificado. Apesar do gosto pelo ensino, Mario quer se dedicar a outros projetos, e um já está programado para o futuro tempo livre. Nesse período a veia de historiador falará mais forte em uma nova pesquisa, um aprofundamento da realizada para a sua dissertação de mestrado em 1993, que originou o livro Opulência e cultura na província de São Pedro do Rio Grande do Sul: um estudo sobre a história de Pelotas (1860-1890). “É também a história da cidade, mas dessa vez vou falar de toda a região. A charqueada parece isolada, mas a ela estão ligados a pecuária de Jaguarão e o porto de Rio Grande, por exemplo”, anuncia.

O lado escritor é um dos mais conhecidos de Mario. Desde cedo, ainda quando estudante de Direito na UFPel, já colaborava com textos sobre história no Diário Popular. Entre suas publicações estão, além da história regional, poesia e história em quadrinhos – uma parceria com o cartunista André Macedo. O afastamento da coluna semanal que assinou no caderno Estilo entre 2001 e 2008 também faz parta da busca por tempo livre para produzir mais obras. “Quero ampliar a visão no aspecto mais regional, dentro do período que pesquiso, o século 19, e tentar uma resposta mais abrangente.” Tarefa que precisará de toda a concentração do autor.

A atividade de professor complementou o historiador. “No momento em que repassas o que foi pesquisado, percebes que os alunos têm perguntas que tu não farias. Isso me fazia pensar e encontrar outras respostas”, comenta. Escrever textos acessíveis e ter uma boa comunicação em entrevistas e palestras também é aperfeiçoamento lapidado em sala de aula. Para ele, o cuidado e a fundamentação científica não deixam de lado a fácil compreensão das mensagens passadas.

Os elogios sobre o Mario professor não são poupados. O ex-aluno Henrique Pires, hoje presidente do Instituto João Simões Lopes Neto, resume o que nota quem assiste as aulas de História de Pelotas: “Ele é apaixonado pela disciplina que ministra, e isso é fundamental em sala de aula.”
E quem convive com Mario elogia sua dedicação à história e o temperamento harmonioso de se conviver. Privilegiados os que terão uma última oportunidade de vê-lo em frente da classe.

Conheça mais

Mario Osorio Magalhães

Nasceu em 24 de novembro de 1949

Professor da Universidade Federal de Pelotas desde 1975, iniciou a carreira acadêmica como docente do curso de Direito, sua graduação original, e desde 1985 se dedica inteiramente à História. Tem mestrado na área desde 1993 e é autor de 15 livros, além dos muitos que organizou, prefaciou e contribuiu. Foi colaborador do Diário Popular em diversas ocasiões, e, entre 2001 e 2008, assinou uma coluna semanal sobre história no caderno Estilo. Na UFPel foi diretor do Instituto de Ciências Humanas por dois mandatos e chefe do Departamento de História.

Mario por amigos

“Conheci o Mario pelos escritos e depois tive o prazer de ser seu aluno no ICH. É uma pena que ele deixe a sala de aula, mas fico feliz porque sei que irá dedicar mais tempo para escrever. Ele é um grande parceiro do Instituto e mais que um pesquisador, é um divulgador da importância da obra de Simões nacionalmente. E os textos dele, pela fundamentação que têm, já salvaram diversas casas e prédios; suas colocações sempre são utilizadas nos processos de tombamento e restauração. Em sala de aula, fala da história com uma paixão que parece ter estado lá, junto.”
Henrique Pires, Presidente do Instituto João Simões Lopes Neto e do Conselho Municipal de Cultura


“A cidade conhece o Mario escritor e historiador. Nós conhecemos o Mario professor, uma pessoa harmonizadora e com um nível de conhecimento sobre a história de Pelotas que não há no departamento. Ele fez um relevante trabalho como orientador de diversos trabalhos importantes de alunos e como administrador do instituto.”
Fábio Cerqueira, diretor do Instituto de Ciências Humanas da UFPel (ICH)

“É uma pessoa com profundo conhecimento e amor pelas coisas de Pelotas. Sem dúvida é uma perda para o departamento. Temos um convívio de vários anos e ele é um ótimo amigo, uma pessoa boa de se tratar e de se trabalhar.”
Beatriz Loner, pesquisadora e professora do departamento de História do ICH.

“O Mario Osorio Magalhães tem feito um trabalho notável para Pelotas. Ele faz um resgate constante da nossa história, e é importante tanto o trabalho de pesquisa própria quanto o que faz como professor e orientador na UFPel. Temos muito orgulho de tê-lo como membro da Academia. Como escritor e historiador, ele reescreve a história, mas com fidelidade, e a torna muito acessível ao público.”
Zênia de Leon, presidente da Academia Pelotense de Letras

Muita chuva, bancas vazias

Publicação: segunda-feira, 9 de março de 2009 – jornal Diário Popular

Feira livre sofre com pouca oferta e preços elevados depois da série de precipitações

A alface tem pesado na sacola de compras de Marlene Soares, que vai à feira todo sábado em busca do melhor produto ao menor preço. Mesmo na manhã ensolarada de sábado, as chuvas que assolaram a região em fevereiro são sentidas nos preços e na qualidade de hortaliças e frutas na feira livre da avenida Bento Gonçalves. A terra encharcada estraga a raiz das plantas, prejudica os tubérculos e para o crescimento dos vegetais. Resultado: mercadorias pequenas e bancas desabastecidas antes das 10h da manhã.

Quem produz e vende sente ainda mais o prejuízo. A feirante e produtora rural Maria Helena Hartwig, há 25 anos no ramo, afirma disponibilizar para venda metade do que costumava expor e o desabastecimento não era esperado. “Essa costuma ser uma época boa, de fartura.” Com pouca oferta, os preços subiram uma média de 25%.

Na mesma situação está Celso Bonow. Os 360 milímetros acumulados nas primeiras chuvas de fevereiro em sua propriedade deixaram um prejuízo estimado entre R$ 10 mil e R$ 12 mil, numa soma entre a produção que vende na feira e, principalmente, o fumo que planta. “Lavouras que iam ter uma produção grande pararam de crescer com a folha ainda pequena. Não tem como produzir com excesso de chuva.”

Os exemplos do prejuízo que a intempérie traz para produtores e consumidores começam nas bancas vazias no meio da manhã. “Um feirante chega a comprar do outro para atender os clientes”, comenta Bonow. Além da alface, a vilã da vez nos preços, o tempero verde indica os estragos da chuva. “Antes, se vendia com qualidade a R$0,50. Hoje, está R$0,70 e sem qualidade. Mas a gente tem que manter a família”, justifica o feirante.

Frente ao descontentamento de quem quer levar o melhor produto, Leomar Hartiwig negocia os descontos em sua banca; a alface muito pequena, de R$0,75 sai por R$0,50. “O cliente reclama, porque são coisas que está acostumado a comprar sempre baratinho”, exclama.

Domingo com cara de outono antecipado

Publicação: segunda-feira, 9 de março de 2009 – jornal Diário Popular

A chuva persistente durante todo o dia de ontem frustrou os planos de quem queria curtir o penúltimo fim de semana de verão e repetiu uma cena comum durante toda a estação. Os tradicionais locais de conversa, passeio e chimarrão ficaram vazios e o clima só foi perfeito para quem planejou ficar em casa. No litoral sul, entre Pelotas, Rio Grande e São Lourenço do Sul, o índice do acumulado de chuva do dia ficou entre 25 e 29 mm.

No que seria o dia de retomada da feira de artesanato, a avenida Bento Gonçalves era local de passagem rápida. Apenas os quero-queros eram vistos na praça da Dom Joaquim. O cinema virou um programa ainda mais convidativo, como fez Daniela Pires, que levou as filhas Maria Luisa, 9 anos, e Cecília, 8, para assistir a Marley e Eu. As três quase desistiram por causa da chuva, mas mantiveram o passeio já comum nos fins de semana. “Elas gostam e é uma das poucas opções que temos na cidade.”

O tempo instável foi bastante localizado na região de Pelotas. Conforme o instituto Metsul, a chuva foi resultado de uma frente fria de fraca atividade vinda do Uruguai e em deslocamento para o mar. O extremo sul e o litoral gaúcho foram especificamente atingidos, em contraste com outras localidades como Jaguarão e Bagé, onde o sol foi entrecortado apenas por nebulosidade.

Uma cidade cada vez mais vulnerável à chuva

Publicação: domingo, 1º de março de 2009 – jornal Diário Popular


Em uma hora e meia de chuva, as pistas da avenida Juscelino Kubitschek se transformaram em piscinas represadas pelos paralelepípedos do meio-fio e atrapalharam a passagem de motoristas, ciclistas e pedestres na tarde de quinta-feira. Na sexta-feira, a situação seria ainda pior. A cena se repete ali e em outros 19 pontos de Pelotas e um dos motivos é mais que conhecido: a geografia plana da cidade. Mas a essa condição se somam um conjunto de fatores que vão desde a impermeabilização do solo da cidade até a antiga e defasada estrutura de drenagem, passando pelo lixo jogado pelas ruas e a falta de um planejamento global para a retenção e escoamento das águas da chuva.

Evitar o acúmulo de águas nas vias de Pelotas depende diretamente do solo, conforme o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Mauricio Polidori. É a base em que está construída a cidade que tem, por natureza, o papel de reter e liberar, aos poucos, a água das chuvas típicas da região.

Para que isso ocorra, o contato da superfície com o subsolo deveria ser feito por canteiros ricos em vegetação, áreas livres e não-pavimentadas em meio à área urbana e medidas que iniciam pelas grandes drenagens, que previnem as enchentes, e vão até as medidas que permeiam o dia-a-dia como o recolhimento do lixo que entope o bueiros.

Para o diretor-presidente do Serviço Autônomo de Saneamento de Pelotas (Sanep), Ubiratan Anselmo, os alagamentos apenas diminuirão quando o plano municipal de drenagem for concluído. Atualmente, esse plano está em fase de contratação de pessoal especializado para realizar uma análise das condições da cidade e, a partir daí, traçar o projeto, o que deve ocorrer até julho. “Mas, a não ser que se consiga um recurso especial, essa obra vai ser feita aos poucos, com recurso próprio.”

A idéia, a princípio, é investir no sistema de canais da cidade, afirma Anselmo. Como Pelotas não tem galerias, as bocas-de-lobo têm ligação apenas com o sistema de travessias, que não dá conta do volume de água que cai sobre a área urbana. Ele acredita que, a partir do novo plano de drenagem, galerias para o escoamento das águas da chuva para os canais devem ser construídas no subterrâneo de determinadas vias.

Entretanto, esse sistema sofre críticas. “Tirar a água rapidamente, por canais e canaletes, é um conceito ultrapassado”, explica Polidori. “Nós não temos um rio que leve essas águas. Para onde as águas iriam escoar?” O ideal para a realidade de Pelotas, segundo o professor, é a drenagem feita pelo solo, com a saída lenta e bem distribuída das águas pluviais. Um escoamento rápido, com a geografia plana, favorece o alagamento.

Um dos canais da cidade é o do arroio Pepino, que divide a área que facilmente inunda em frente à oficina de Paulo Roberto Silveira. Ele vê da porta de casa um canal quase seco em meio a uma avenida alagada e sem saídas para o escoamento, tanto do acúmulo na pista antiga quanto no trecho recém asfaltado entre a avenida Domingos de Almeida e a rua Padre Anchieta. “O outro lado [a pista antiga] é uma armadilha. Em dez minutos a água sobe e os carros têm dificuldade para passar.” Para diminuir o transtorno do lado da nova pista, alguém quebrou parte do meio-fio que impede a ligação da rua com o canal do Pepino. “Quando quebraram, alguns vizinhos já estavam com água dentro de casa”, relata.

O problema, que não é exclusivo dessa avenida, muito tem a ver com a falta de estrutura das ruas, sem galerias ou com capacidade de drenagem natural pelo solo. Somam-se à falta de estrutura das ruas, as velhas casas de bombas que drenam a água da cidade, que são da década de 1960, oriundas das obras de macrodrenagem planejadas em função das grandes enchentes da década de 1950, como lembra Polidori.

Mas não é só no plano macro que medidas são necessárias. No nível micro, coisas simples como pátios pavimentados, sem ligação da superfície com o subsolo, lixo nos bueiros e a falta de canteiros e áreas arborizadas, colaboram para os alagamentos constantes, conforme o pesquisador.

Eterno dilema: asfalto ou paralelepípedo

Ubiratan Anselmo não vê no asfaltamento realizado em diversas vias da cidade em 2008 um dos causadores das grandes e pequenas inundações de fevereiro. “Os pontos registrados são os mesmos.” Mas, para Polidori, o asfalto é mais um fator que impede o contato da superfície com o subsolo. “O asfalto agrada pelo conforto, mas é o pior tipo de pavimento para a nossa realidade.”

Por Pelotas ser uma cidade totalmente plana, qualquer desnível, por menor que seja, é significativo, explica o professor. A cobertura asfáltica posta sobre o antigo pavimento, além de impermeabilizar e impedir a absorção da água pelo solo, diminui a diferença de altura entre a calçada e a rua, que poderia facilitar o escoamento. “Dez centímetros a menos em um meio-fio, que seja, já faz toda a diferença”.

Airbag poderá ser obrigatório até 2014

Publicação: domingo, 1º de março de 2009 - jornal Diário Popular

Câmara dos Deputados aprovou emenda ao Código Brasileiro de Trânsito que toma o dispositivo obrigatório para o condutor e passageiro dianteiro em todos os veículos do País

Um acidente de trânsito é um drama não só para as vítimas e suas famílias, mas também para o sistema de saúde do País. Com cada pessoa hospitalizada por conta de acidentes nas ruas e estradas são gastos em torno de R$ 14 mil. Para diminuir o número de mortes e lesões, a Câmara dos Deputados aprovou recentemente uma emenda ao Código Brasileiro de Trânsito que torna obrigatório o airbag para o condutor e o passageiro dianteiro em todos os carros em uso no Brasil a partir de 2014. Especialistas veem a medida de forma positiva.

A proposta, que teve origem no Senado, tramita desde 2004, e agora aguarda apenas a sanção do presidente Lula. Atualmente mais comum em carros importados ou de luxo, o airbag passará a ser item de série até mesmo para carros populares. Hoje poucos são os modelos 1.0 que oferecem o opcional; quando oferecem, o investimento fica em torno de R$3 mil, já que junto ao dispositivo de proteção um pacote de conforto e funcionalidade precisa ser adquirido. Se sancionada pela presidência, a medida passará a valer para os veículos fabricados a partir de 2014, no caso de o projeto de fabricação já existir. No caso de novos projetos automotivos, o airbag deve estar presente até 2012.

“No Brasil são 42 mil mortes por ano em acidentes de trânsito, e sobre as lesões não se têm a estatística. Essa medida vem em favor da vida”, avalia o instrutor de transporte e sargento da Brigada Militar, Gilson Caldas. Para ele, o item é de suma importância, apesar de não estar entre as prioridades na compra de um veículo. “Muitas vezes, pelo valor, se prefere ter um ar-condicionado a um airbag.”

O professor da Universidade Federal de Pelotas e médico traumatologista, José Raymundo, está entre os que já confiam no airbag, e não compra carro sem a proteção. “É como o seguro. Se espera não precisar usar, mas é necessário.” O médico afirma que, depois do cinto de segurança, esse é o item mais importante para garantir a sobrevida de quem se envolve em um acidente e é recomendado pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia.

Mesmo em batidas ou acidentes menos graves, em que não há morte, a face, o crânio e o tórax estão expostos a lesões e traumas. “E por menor que seja o trauma, a pessoa passará pelo menos um mês envolvida com a recuperação, quando não ficam sequelas irreversíveis.” Raymundo entende ser financeira e não cultural a resistência do brasileiro em adquirir o opcional de fábrica. “Mas ele é muito importante. A salvação pode estar aí.”

O impacto do equipamento

Conforme a fabricante de airbags TRW, que atua no Brasil, em caso de acidente o airbag reduz 14% das mortes de condutores e 11% das mortes de passageiros do banco dianteiro. E os índices de prevenção contra lesões é ainda maior.

Número de mortes em acidentes por ano no País – 42 mil

Redução de 14% das mortes de condutores
Redução de 11% das mortes de passageiros do banco dianteiro
Redução de 85% dos danos de choque de cabeça contra o veículo
A combinação cinto + airbag salva ainda mais:
Redução de 59% do risco de lesões moderadas no tórax
Redução de 45% das lesões moderadas nos membros superiores

Onda vermelha na Bento Gonçalves

Publicação: segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009 - jornal Diário Popular

Falta de sincronia dos semáforos localizados na via símbolo de Pelotas provoca o arranca-anda-para de veículos que irrita quem precisa vencer os 13 cruzamentos entre as ruas Almirante Barroso e Marcílio Dias


Atravessar a avenida Bento Gonçalves de ponta a ponta pode ser um desafio à paciência de qualquer motorista, não importa o dia da semana. Dos 13 cruzamentos entre as ruas Almirante Barroso e Marcílio Dias, dez têm semáforos e a maior parte deles o condutor vê fechado ao chegar no fim da quadra.

Em um meio-dia calmo, durante as férias de verão e sem o movimento de saída das escolas, atravessar a Bento no sentido Barroso-Marcílio Dias leva ao menos sete minutos. No sentido contrário, o mesmo trecho pode ser feito em cinco minutos. O arranca-anda-para em cada quadra não permite que o motorista passe da terceira marcha, e dificilmente é possível alcançar mais que os 35 ou 40 quilômetros por hora (km/h) circulando pela direita, em uma via na qual o limite é 60 km/h.

No ponto de táxi da esquina das ruas General Netto e Osório, a preocupação dos taxistas Antônio Celso Nunes e José Francisco Borges é com o horário dos passageiros, especialmente os que vão para a rodoviária. Clientes com pressa veem nos sinais vermelhos uma possibilidade de perder a viagem marcada. "A ida é um horror, os sinais são desencontrados. Na volta, se pega vários sinais verdes e em ruas como a Deodoro se anda bem", comenta Nunes.

A dificuldade de locomoção na Bento Gonçalves é atribuída pela Secretaria de Segurança, Transporte e Trânsito (SSTT) à característica da via, pouco espaçosa para o volume de veículos que recebe e com muitos cruzamentos, além de ser amplamente utilizada como espaço de lazer - o que gera a característica lentidão da faixa da esquerda. Para o secretário Jacques Reydams, a melhor alternativa é evitar a avenida sempre que possível.

Entretanto, os problemas com os repetidos sinais vermelhos são reconhecidos. "Talvez seja o caso de repensar a programação dos semáforos", comenta Reydams. Para isso, será necessário atualizar os dados de fluxos de veículos para melhorar a sincronia. A dificuldade em manter os dados da via atualizados está na falta de pessoal para realizar a contagem dos carros, que analisa o tréfego em todo o período diurno e gera as estatísticas que baseiam as programações.

Sinal queimado

À falta de sincronia, somam-se lâmpadas quebradas em sinaleiras a todo lado. Resultado de um lote defeituoso fornecido à prefeitura e da vedação precária das sinaleiras, pouco protegidas de chuva e vento. Sem contar as quedas de luz, que colocam os sinais em amarelo piscante, medida de segurança automática para que não queimem.

Exemplo de fluidez

Se na avenida Bento Gonçalves o vermelho é a cor predominante, uma onda de sinais verdes permitem agilidade no trânsito da Marechal Deodoro. No trecho entre Bento Gonçalves e Tiradentes, dos 11 cruzamentos, cinco têm sinaleiras. Depois de um sinal fechado na esquina com a Voluntários da Pátria, a reportagem do Diário Popular seguiu por uma sequência de passagens livres nas sinaleiras da General Neto, Marechal Floriano, Lobo da Costa e Tiradentes. Foram apenas dois minutos para andar 11 quadras, cinco a menos do que se leva para percorrer a mesma distância pela avenida.

A Marechal Floriano, em pleno centro da cidade, é outro exemplo de que o trânsito pode fluir. Entre as praças Coronel Pedro Osório e Vinte de Setembro são oito sinaleiras distribuindo o trânsito de dez cruzamentos. O trecho pôde ser percorrido em três minutos, com apenas três paradas obrigatórias: nas ruas Félix da Cunha, General Osório e Marcílio Dias. Entre elas, sequências de sinais verdes desafogam os arredores do Calçadão e facilitam o acesso ao bairro Fragata e à saída para Rio Grande.

Nessas vias, os semáforos trabalham de forma coordenada. A programação é pré-estabelecida, mas um semáforo mestre controla três sinaleiras, permitindo o dinamismo do tráfego, conforme explica o responsável pelos semáforos na SSTT, Francisco Cruz. Essa sincronização de sinais é conhecida como Onda Verde. A sequência de passagens livres favorecem o fluxo em uma via ao permitir que os veículos mantenham uma velocidade constante, sem necessidade de parar. Além de tempo, a onda economiza dinheiro, já que sem precisar arrancar repedidamente o consumo de combustível é reduzido. Medida também favorável ao meio ambiente.

Em diversas capitais, como Porto Alegre, a onda verde é controlada por sensores na pista que identificam o fluxo em tempo real e atualização a programação dos sinais verdes. Em Pelotas, essa tecnologia ainda é realidade distante. Por enquanto, a onda verde em alguns locais é programada a partir da contagem de fluxo e as estimativas para cada horário.

Muita confusão no caminho das compras

Publicação: domingo, 8 de fevereiro de 2009 - jornal Diário Popular

Problemas estruturais como a rede de esgoto e a fiação no Calçadão diminuem o brilho de um dos locais mais frequentados do centro da cidade


Mau cheiro, falta de espaço para circular em algumas quadras, piso irregular, caos na fiação exposta e sujeira, muita sujeira. Quem passa todo dia pelo Calçadão pode já ter se acostumado com os problemas, mas eles estão aí, atrapalhando lojistas, consumidores e turistas que visitam o centro comercial de Pelotas. A curto prazo, as modificações previstas pela prefeitura são paliativas. A longo prazo, um projeto de revitalização do trecho comercial da Andrade Neves, previsto desde 2006, deve começar a sair do papel no segundo semestre de 2009, e promete resolver de vez as queixas.

A sujeira espalhada pelo chão e o mau cheiro são os primeiros problemas apontados. “O cheiro de esgoto é impossível, e se sente sempre”, comenta o aposentado Carlos Alberto Borges, que frequenta o Calçadão diariamente. O odor, segundo a Secretaria de Urbanismo, vem das ligações irregulares do esgoto cloacal vindo das lojas na rede de esgoto pluvial, destinada ao escoamento de chuva.

O presidente do Sindilojas, Renzo Antonioli, soma a isso a sujeira que se acumula nos bueiros. “São verdadeiros depósitos de lixo e eu nunca vejo ser feito uma limpeza nos bueiros.” Ele alega que são despejados nas galerias até mesmo os dejetos dos alimentos vendidos por ambulantes. Já os papéis, embalagens e outros materiais jogados no chão não dependem apenas da limpeza contratada pela prefeitura. “Ninguém pode limpar durante 24h. A população às vezes não ajuda”, comenta Antonioli.

As bancas de vendedores ambulantes também são outro ponto de discórdia no centro da cidade. As áreas mais críticas são os trechos da Marechal Floriano entre o Calçadão e a General Osório, e da Andrade Neves, entre Marechal Floriano e Lobo da Costa. Com os ambulantes na calçada, o espaço para locomoção dos pedestres e a visualização das vitrines ficam prejudicadas. “Os camelôs deveriam descer para o camelódromo. Eles precisam trabalhar, mas não em cima da gente”, avalia a consumidora Fabiane Machado.

A idéia da prefeitura é fazer justamente isso. Mas para transferir as bancas que hoje estão no centro antes será necessário começar – e concluir – as obras de ampliação do camelódromo da praça Cypriano Barcellos. Enquanto isso não acontece, o plano da Secretaria de Urbanismo é reorganizar os ambulantes na Marechal Floriano. Conforme o secretário Luciano Oleiro, a faixa de estacionamento será transferida da esquerda, onde está, para a direita. As bancas irão descer da calçada para uma área reservada na faixa da direita, e o trânsito será deslocado para o outro lado. Na Andrade Neves, a idéia é deslocar as bancas em direção ao centro da via, para liberar o espaço para os pedestres.

Além de dificultar o fluxo, a presença dos camelôs é um problema para os lojistas, que têm as vitrines bloqueadas pelas bancas. Para ganhar atenção, os produtos das lojas acabam também na calçada, reduzindo ainda mais o espaço. “É uma concorrência desleal e uma situação provocadora. Eu não tenho como, hoje, pedir para um associado recolher os produtos. Quando as calçadas estiverem livres, se a prefeitura quiser nossa ajuda para isso, faremos com prazer”, afirma o presidente do Sindilojas.

Reforma do espaço custará R$ 2,5 milhões

Quem olhar para baixo verá remendos de cimento no lugar das lajotas quebradas; ao olhar para cima, postes apinhados de fios emaranhados poluem o visual. A solução definitiva para esses problemas deverá vir apenas com a realização de uma obra que pretende recuperar a estrutura do Calçadão. A reforma, orçada em R$2,5 milhões e com recursos que virão do Banco Mundial, deve começar no último trimestre de 2009, segundo a Unidade Gestora de Projetos (UGP), da Secretaria de Urbanismo. A reforma será bem-vinda não só pelos usuários, mas também pelos lojistas que, atualmente, têm as vendas prejudicadas pela situação do Calçadão, segundo Antonioli.

As mudanças começarão com o aterramento dos fios, que irão para o subsolo e eliminarão os postes atuais, os quais serão trocados por iluminação de praça. A rede de esgoto deve ser refeita, e as ligações de esgoto cloacal das lojas regularizadas, liberando o esgoto pluvial para sua função e eliminando o mau cheiro constante.

Em sequência, o piso deve ser todo refeito, sobre uma nova base, mais resistente para prevenir o desprendimento dos ladrilhos. Para finalizar, todo o mobiliário urbano (bancos, lixeiras etc.) será trocado, e os canteiros serão modificados a fim de melhorar a acessibilidade do local. Para que aconteça a mudança dos camelôs no novo espaço durante as obras, o assistente técnico da UGP Raul Odone explica que as duas obras, no camelódromo e no Calçadão, devem andar juntas, para que não haja conflitos. E o secretário de urbanismo alerta: se hoje a fiscalização age para que novos ambulantes não se instalem no Calçadão, no futuro a fiscalização irá trabalhar para impedir que outros tomem o local.